O contexto é de transformações - Por Tássia Rabelo

O mundo vivencia um momento especial e a juventude petista não pode se omitir diante de tantas transformações e oportunidades. Insurreições são vistas na África e no Oriente Médio; na Europa novos movimentos antiglobalização e anticapitalistas se consolidam; e nos Estados Unidos pessoas vão às ruas protestar contra Wall Street e o capitalismo financeiro que esta representa.

Na América Latina temos, de um lado, jovens que se rebelam de maneira irreverente contra o governo conservador do chileno Sebastián Piñera e clamam por seus direitos, e, de outro, novas oportunidades advindas do combate intenso à pobreza empreendido por governos de esquerda na última década, que nos permitem lutar por outros direitos e recolocar o socialismo democrático como perspectiva concreta.

Nesse contexto a juventude petista deve ter como tarefa central organizar os mais de 200 mil jovens filiados ao Partido dos Trabalhadores, bem como transformar o sentimento petista presente na sociedade em uma força motriz que tenha capacidade de impulsionar as mudanças que queremos para o nosso país.

Para tal, é preciso que a Juventude do Partido dos Trabalhadores (JPT) tenha clareza de que o partido está à frente de um governo de coalizão e que, apesar da importância da disputa institucional, nossa força real não está nos gabinetes e sim nas ruas. A adaptação do PT à institucionalidade e o seu distanciamento dos movimentos sociais e das lutas diárias da juventude devem ser vistos de maneira crítica. É necessário que o partido se reaproxime desses movimentos e pressione o governo para a esquerda, caso contrário a mídia hegemônica e os setores conservadores que compõem o governo não medirão esforços para conter os avanços que estamos trabalhando para obter.

Por acreditar que o benefício das políticas públicas implementadas pelo governo federal são suficientes para legitimar o PT, nosso partido tem se omitido cada vez mais da disputa de segmentos historicamente excluídos que foram contemplados por esse conjunto de políticas. Tal postura é perigosa, ainda mais se tratando da juventude, que não viveu o cerceamento de direitos e o conservadorismo exacerbado da ditadura, a hiperinflação, o desemprego em massa, a fome e a ausência de perspectiva, e que em geral veem em programas como o Bolsa Família, o Prouni, bem como na ampliação das escolas técnicas e de vagas nas universidades federais, direitos adquiridos.

Depois de quase nove anos de governo do PT, existe um desgaste material de toda essa geração que não viu o governo anterior e só tem como elemento de avaliação o  próprio governo. A visão que esse segmento tem do PT foi forjada por uma mídia que, desde que Lula chegou a Palácio do Planalto, trabalha para manchar nossa história e reduzir a repercussão das transformações que estamos promovendo no país. Imaginem nossa situação em 2014, depois de doze anos de governo do PT?

Sabemos que o PT foi e é um grande instrumento da classe trabalhadora, prova disso é que não conseguimos olhar para os últimos trinta anos da história brasileira e encontrar uma luta do nosso povo na qual o partido não foi protagonista ou ao menos a  encampou. Diante dessa constatação precisamos lutar para que nos próximos trinta anos o PT continue sendo um instrumento de transformação da sociedade. Tal tarefa não é simples.

Para dar conta desse desafio é preciso fazer da JPT uma organização de massas com autonomia política que lhe dê condições para questionar posicionamentos conformistas do partido, bem como alertar para os riscos que determinadas decisões nos colocam. Se nós não cumprirmos essa tarefa histórica o resultado final será não apenas uma derrota eleitoral em 2014, mas a derrota do projeto político que construímos quando o PT foi fundado.

A direita já atentou para a centralidade do jovem na construção de hegemonia política para o próximo período. O DEM colocou um jovem negro da periferia em sua inserção partidária na TV e o PSDB faz uma caravana nacional com os seus jovens,  apresentando um FHC repaginado, como um intelectual moderno que defende a legalização das drogas. Enquanto isso o PT segue vacilante no que se refere à priorização da juventude, prova disso é que mesmo diante dessas grandes tarefas não conseguimos aprovar a autonomia financeira da JPT no 4º Congresso do PT. 

A permanência dos mesmos dirigentes na estrutura partidária durante vários anos estagna a visão do PT sobre a sociedade e por isso devemos encampar um processo de renovação de quadros e dessa forma oxigenar o partido. Nesse sentido o 4º Congresso nos abriu uma grande janela com a aprovação de 20% de cotas de jovens nas direções. Cabe às próximas gestões da JPT garantirem formação política para esses que muito em breve serão dirigentes partidários e pressionar para que em 2013 a cota seja cumprida.

Momentos de disputa interna são necessários e denotam o caráter democrático do nosso partido, no entanto não podemos esquecer que nossa disputa real está na sociedade. Precisamos girar nossas forças para travar um debate aprofundado com a juventude brasileira e apresentar um projeto alternativo ao modelo capitalista e neoliberal que a cada dia mais demonstra sua capacidade para a barbárie. Para tanto precisamos enraizar a nossa organização em todos os estados da federação, e garantir que os mais de 1.500 municípios em que recentemente realizamos congressos se tornem direções municipais da JPT com vida ativa e pujante.

Outra tarefa central da juventude petista é modificar a forma de fazer política para torná-la mais atrativa para os jovens. Precisamos investir mais em cultura e nos inspirar nos exemplos dos movimentos feministas, no Movimento dos Sem Terra e tantos outros, que há tempos estabeleceram uma dinâmica interna diferenciada que nos ensina que é possível discutir política de forma dinâmica e agradável. A juventude petista deve transformar novamente o partido em um espaço de convivência, que vá além dos momentos de disputa interna e externa, promovendo debates, festivais, cineclubes e campanhas políticas em todo país.

Não podemos cair no “conto da sereia” em que caíram a maior parte dos partidos social-democratas europeus. Estes equivocadamente acreditaram que seria possível a chegar ao socialismo partir dos governos e do Parlamento, sem a mobilização das massas. O PT nasceu se contrapondo a essa ideia e não pode esquecer seus princípios, se adaptando à sociedade capitalista e promovendo apenas reformas pontuais que não alteram as bases estruturais do sistema. Acreditamos que, apesar dos avanços, não conseguimos transformar em realidade muitas de nossas bandeiras e que nosso partido se aproxima de uma encruzilhada histórica em que experimentaremos os limites da política de conciliação de classes.

Nesse sentido, o II Congresso Nacional da JPT tem papel central não apenas para consolidar nossa organização, mas principalmente para retomar o debate estratégico e provocar o conjunto do partido para debater nossa trajetória e se reposicionar no cenário político nacional e internacional. É importante que, passado o congresso, a direção nacional da JPT referende nossos companheiros dirigentes dos movimentos sociais e do governo, independentemente das forças políticas a que pertençam, e dialogue com as secretarias estaduais como um todo. Só dessa forma poderemos dar uma real contribuição para a construção de um Brasil e de um outro mundo possível.

Tássia Rabelo é militante do Fora da Ordem, candidata à secretária Nacional de Juventude do PT
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