Um novo olhar sobre as eleições, por Bruno Roger Ribeiro*

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia... Quando nada acontece há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo”. (Guimarães Rosa)

Não é novidade que este ano enfrentaremos árduas eleições municipais. De todas, talvez esta seja a mais difícil e a que tenha importância maior, visto seu impacto direto no dia-dia da população e a proximidade dos candidatos e governantes com o povo. Neste sentido, o processo eleitoral nas cidades permite uma série inesgotável de reflexões, tornando-se fonte de valiosos ensinamentos. 

A conjuntura política, embora radicada nos baldrames do pragmatismo, também carece de novos elementos. Desta forma, faz-se sempre necessário recuperarmos a motivação ideológica da militância e do engajamento nas causas populares. Qual é o real e mais elevado sentido da política em nossas vidas? O que verdadeiramente queremos ao conquistar governos e eleger vereadores? Tacitamente, sabemos que a finalidade da ação política consiste em promover o bem comum. No entanto, tal premissa é assaz evasiva. Promover o bem comum? Como? Entranhado em quais circunstâncias? A partir de qual projeto de sociedade? 


Inegavelmente, o modo petista de governar e legislar possui uma essência transformadora. Ostentamos princípios e valores de um partido de esquerda e de massas. Somos norteados pelos pressupostos da inversão de prioridades, dos investimentos nas políticas sociais, fortalecimento do Estado e da esfera pública, políticas de transferência de renda, enfrentamento das discriminações e violências, participação popular, radicalização da democracia em todas as suas dimensões. Estas são as marcas dos governos petistas. Estas são as marcas de nossa militância. Estas são as marcas de nossa história e das muitas lutas que amargamos nos marcos do neoliberalismo de mercado e de um capitalismo global.

O governo Lula comprovou que é possível avançarmos na construção de um novo modelo de sociedade. Um modelo que suscita a dignidade da pessoa humana e fortalece a democracia. Um modelo que combina crescimento econômico e distribuição de renda. Um modelo que atrela desenvolvimento econômico e inclusão social. Um modelo que consolida a soberania nacional e popular. Um modelo que extirpa as discriminações de gênero, raça, etnia, sexo, origem social, dentre outras. Um modelo balizado no respeito aos direitos humanos e na edificação de uma nova cultura política. Um modelo que busca a igualdade sem sacrificar a liberdade e que garante a liberdade sem abrir mão da igualdade.

Ademais, não podemos fazer uma leitura entusiástica da conjuntura. Reconhecemos os passos dados na direção do ideário democrático-popular e da superação do neoliberalismo, porém sabemos que há muita coisa pra fazer. Sabemos dos vícios de poder e dos insolentes riscos da luta institucional. Por isso, cada vez mais, precisamos fortalecer o partido, estreitando o diálogo com os movimentos sociais, a fim de emplacarmos as grandes reformas estruturais e estruturantes. Neste aspecto, as eleições remetem para a necessidade de revisitarmos nosso projeto de sociedade e fazermos uma avaliação sobre o caminho mais seguro rumo ao socialismo.

Assim, a disputa eleitoral detém uma dimensão substancialmente pedagógica. Ou seja, temos que aproveitar as oportunidades aventadas pelas campanhas, bem como o ambiente propiciado pelas eleições, no sentido de politizarmos o debate e ampliarmos a capacidade de dialogar com a população. Faz-se necessário que o projeto político do PT seja cotidianamente reafirmado e, acima de tudo, tenha compatibilidade com os anseios da sociedade, caso contrário, tornar-se-á obsoleto e inexeqüível.

Desta maneira, temos a tarefa de disseminar as discussões acerca da reforma política e da urgência de um novo marco regulatório para a comunicação. É nossa tarefa difundir a necessidade de um sistema tributário mais justo e equitativo. É nossa tarefa insistir em um novo paradigma para a segurança pública e desnudar as contradições do sistema prisional brasileiro. Além disso, cabe propor políticas alternativas de mobilidade urbana, contribuindo para uma modificação na estrutura das grandes cidades.  Defender maiores investimentos na qualificação profissional dos jovens, melhores empregos e redução da jornada de trabalho. Provocar, por meio de políticas públicas, novas formas de geração de renda, levando em conta as potencialidades da economia solidária. 

Indo adiante, temos que exigir do Estado brasileiro e suas instituições, reconhecimento dos direitos inerentes aos grupos minoritários historicamente marginalizados e socialmente discriminados. Temos que defender políticas públicas de igualdade de gênero, combate ao racismo, à intolerância religiosa e à homofobia. Há que se alertar, ainda, para a necessidade de ampliarmos efetivamente a participação política das mulheres, população negra, jovens, pessoas com deficiência, população LGBT, isto é, dos segmentos que sofrem com estigmas abrasivos. 

Interessa, nas eleições, destacar os investimentos realizados pelo Governo Lula e acenar para a transformação em curso no país. Temos que polarizar a disputa com a direita anacrônica, representada pelos demo-tucanos e companhia, confrontando projetos e experiências de governos. Devemos, porquanto, dinamitar nossos verdadeiros inimigos, denunciando as contradições do sistema capitalista e suas conseqüências devastadoras. É nossa tarefa conquistar a sociedade para o projeto político do Partido dos Trabalhadores.

Além de defendermos tudo que o PT já fez pelo Brasil, não podemos deixar de anunciar o que ainda virá. Como diz a bela canção de Milton Nascimento, “se muito vale o já feito, mais vale o que será”. Este deve ser o espírito da juventude petista na disputa eleitoral. Precisamos evidenciar as dimensões revolucionárias de nosso projeto democrático e popular. Precisamos fazer um embate ideológico e programático e não meramente pragmático e calculista. Precisamos revigorar os princípios primeiros de um partido de esquerda e demonstrar o potencial da práxis transformadora. Precisamos humanizar a política. 

Destarte, mais do que vencer eleições em muitas cidades e eleger inúmeros vereadores, temos que derrotar o conservadorismo e toda força reacionária que persiste em nosso país. Por isso, cada candidato do PT, seja majoritário ou proporcional, deve entrar na disputa ciente de sua importância na construção de uma nova sociedade.

*Bruno Roger Ribeiro é Secretário Estadual de Juventude PTM
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