Romper com o coração

*Bruno Roger Ribeiro

Muito se fala em corrupção no meio político. Aliás, a política é tida como uma atividade substancialmente criminosa. Ao menos, é desta forma que ela chega até a população, por meio da difusão da grande mídia que, para tanto, espetaculariza os fatos e escandaliza a sociedade. Se se trata de uma prática dotada de intencionalidade, não é o caso de julgarmos. O que percebemos claramente é que existe uma tendência de determinados setores em estigmatizar as instituições democráticas e criminalizar a ação política. Este ato, sem duvidas, corresponde aos interesses dominantes de distanciar a população do poder, como forma de perpetuar a dominação. Ou seja, quanto mais longe o povo estiver dos “negócios” do Estado, melhor para os detentores do poderio econômico e político.

Trata-se, contudo, de um verdadeiro problema para a democracia, talvez um dos principais entraves para a construção da cidadania. Uma massa que tem ojeriza de política torna-se mais maleável e, portanto, passível de dominação. Contanto, cabem pontuações a este respeito. Há que se reconhecer que a corrupção não está apenas no ambiente político, quanto menos é algo intrínseco a ele. Antes pelo contrário, ela está em todos os lugares, permeando as relações sociais. Seria cogente salientar que nos referimos a algo que faz parte da cultura humana. Para isso, basta tomarmos o conceito de corrupção sob uma acepção mais ampla. Se, por exemplo, fizermos uma disjunção da palavra, observaremos que seu significado etimológico indica para um sentido revelador, qual seja: “Cor”, abreviação em latim para coração, “Ruptus”, também do latim, remete a ideia de quebrar em pedaços, romper. Isto é, “corrupção” pode ser entendida como um ato de romper ou dilacerar o coração.

Deste modo, se partimos da premissa aristotélica de que todas as coisas tendem para o bem, podemos dizer que romper com o desejo do coração significa distanciar-se eticamente da prática do bem. Daí, todo o apelo moral em relação à necessidade de se aniquilar a corrupção. De fato, precisamos criar mecanismos que inibam e punam o ato corruptivo, contudo, temos que compreender que o próprio sistema apresenta-se na condição de corruptor e corruptível. Isto remonta a um dilema ético que muito nos preocupa. Como resistir às seduções e pressões de um sistema estruturado sob mecanismos corruptores? Para ser fiel à realidade, convém assinalar que vivemos em uma sociedade que também possibilita esta ruptura com o bem, obrigando-nos a conviver com uma destema hipocrisia moral. 

A corrupção não é uma característica apenas do meio político, ela está impregnada em nosso cotidiano e nas relações sociais. Assim, precisamos vigiar muito para não cairmos inertes no precipício da ignorância. Os pequenos atos corriqueiros, como por exemplo, desrespeitar os outros, discriminar as pessoas, furar uma fila, descumprir uma lei, avançar sinal do trânsito, aceitar devolução errada de troco, etc., também são corrupção. Desta forma, como então eliminar esta prática do nosso dia-dia? Certamente, não é uma tarefa fácil, mas a primeira coisa é cumprir com a nossa inclinação para o bem. Mais do que isso, criar condições políticas, sociais, econômicas e culturais, para que a prática do bem floresça argutamente na sociedade.
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