ENEPT 2013: desafios da juventude para um novo PT

Lá vem mais um ENEPT (Encontro Nacional dos Estudantes Petistas). Primeiro, segundo, quinto...? Ninguém sabe, é mais um. De cara, o primeiro desafio que se apresenta é o resgate efetivo da memória em torno desse tipo de referência. Não é só “mais uma” atividade, somos nós, é nossa vida, são nossas lutas, é a nossa história sendo construída, portanto, que comecemos o diálogo com um resgate respeitoso de nossas trajetórias (e de todos e todas que vieram antes de nós).

Há 33 anos e alguns meses, sindicalistas, religiosos progressistas, grupos de combate à ditadura e de intelectuais se reuniam para construir uma alternativa ao estado de barbárie produzido pelo sistema capitalista. Dessa reunião, nascia o nosso PT, partido desde sempre comprometido com as lutas populares em nosso país e dedicado à construção de um modelo alternativo de socialismo (eminentemente democrático).

Nesse contexto, a juventude (normalmente vinculada à ideia de renovação) sempre teve destaque nas discussões do partido. Contudo, próximo ao que ocorre na sociedade, falou-se muito, mas priorizou-se pouco. Os jovens ainda sofrem bastante para assumir papéis de relevância, sendo constantemente desacreditados e desestimulados a disputarem espaços de poder.

Há, sem dúvidas, avanços, como a própria resolução recente que estipula que 20% dos cargos em direções sejam ocupados pela juventude. No entanto, ainda é muito incipiente, principalmente se considerarmos que essas indicações serão feitas pelos velhos dirigentes de sempre, de forma que o jovem indicado será em princípio, não o mais preparado, mas o que menos incomode.

Nesse contexto, discutir as pautas dos estudantes petistas é um exercício altamente oportuno, mas é importante que ampliemos as perspectivas do encontro, fazendo dele um momento privilegiado para debater também o protagonismo e o empoderamento juvenil no interior do partido, posto o processo de eleições internas em curso no PT.

Além disso, organizamos em nossas bases uma grande quantidade de jovens que não estão na escola, não chegaram à universidade ou simplesmente decidiram fazer outros movimentos, que não o estudantil. Mediante a essa diversidade de realidades, é nosso papel fazer do ENEPT um ambiente plural, com foco nas discussões em torno dos assuntos educacionais, mas aberto a interagir com as questões legítimas que possam surgir naquele fórum. Um debate vivo, sem amarras, em que a única voz que se sobrepunha às demais seja a coletiva.

A Juventude do PT precisa trilhar um caminho próprio em relação ao núcleo dirigente do partido. Temos que assumir nossa centralidade, enquanto instância autônoma, interagindo de forma destacada com as bandeiras de lutas reais da juventude brasileira.

Discutir o Plano Nacional de Educação é fundamental. Elevação da escolaridade, enfrentamento do analfabetismo, universalização dos ensinos básico, fundamental e médio, aumento da educação em tempo integral, ampliação do ensino técnico, de graduação e de pós graduação, melhoria das condições de trabalho dos profissionais da educação, com plano de carreira, melhores salários e formação continuada, além da ampliação vigorosa dos investimentos feitos em educação, são aspectos imprescindíveis para aprofundar o processo de mudança estrutural iniciado em nosso país.

Contudo, em meio a tantas manifestações pelo país, algumas com causas até questionáveis, muitas das diretrizes apontadas pelo PNE ainda não se tornaram uma bandeira de luta efetiva no conjunto dos movimentos e das juventudes organizadas. Um desafio para encararmos.

Essa edição do ENEPT tem um momento previsto para tratar das mobilizações iniciadas em junho. Certamente, os convidados para essa discussão têm conteúdos teóricos relevantes a transmitir, entretanto nenhum foi referência dessas lutas práticas. Por que não chamar o Mídia Ninja, o MPL, O Black Bloc ou qualquer outro grupo que tenha se tornado referência nesse processo para trocar pontos de vista conosco? É bem provável que discordemos de um monte de suas posições, mas só com um debate efetivo podemos refletir sobre nossos argumentos (em alguns casos até criar os que sequer existem) e dialogar, de fato, com as questões que influenciam e dividem opiniões entre os jovens brasileiros.

Outro assunto de máxima relevância é a discussão sobre o papel das redes sociais. Democráticas ou não, elas ocupam um tempo extenso no cotidiano de uma multidão de jovens (inclusive entre vários de nós). Muitos grupos de direita, preconceituosos, retrógrados estão se reinventando no ambiente virtual, atraindo uma série de novos simpatizantes, enquanto as iniciativas no campo da esquerda ainda são tímidas. O próprio PT não consegue produzir conteúdos que “colem”, com uma comunicação sempre muito pesada. Pode parecer radical, mas o maior instrumento que a juventude brasileira utiliza hoje para conhecer as ações da presidenta Dilma é a página “Dilma Bolada”, que consegue na irreverência tocar em assuntos que nem os nossos discursos no parlamento, nem os investimentos do governo em publicidade dão conta. Enquanto isso, Jeferson Monteiro (criador por trás do personagem) ganha notoriedade na rede e na mídia, mas não foi, sequer, recebido pela presidenta. Por que nosso ENEPT não pode discutir isso e convidar esse Jeferson para falar sobre suas experiências?

Falando especificamente dos avanços dos governos Lula e Dilma no Brasil, não há dúvidas de que programas, como o PROUNI, são determinantes na transformação de nossa realidade. Isso é importante ser discutido. Mas mais importante que simplesmente defender essas políticas entre nós, é discutir o papel do PT nessa relação com a sociedade, possibilitando a efetiva disputa de opinião. O PROUNI muda vidas, mas não constrói, como é típico de uma política pública, hegemonia ideológica. Nesse sentido, o que é mais comum de ser visto hoje é o tipo que acabou de ingressar na classe média (ou na nova classe trabalhadora), mas apesar da ascensão social, não reconhece no nosso partido e nos nossos programas o motivo efetivo de seu salto econômico. O governo como representante de todos, tem poucas condição de intensificar esse enfrentamento. Nós, enquanto partido, com posição política e lado na sociedade devíamos ser os protagonistas nessa disputa.

O desafio maior que se coloca á realização exitosa do ENEPT, além da riqueza dos processos de discussão em si, é a construção efetiva de sínteses programáticas estratégicas sobre nossos papeis nos movimentos sociais. Não é cabível, que no movimento estudantil por exemplo, avaliemos como normal o atual estágio de relações desvinculadas entre as forças petistas. Somos um partido, temos um programa que nos une e não podemos atuar de uma forma inconsequente nas nossas alianças. Toda essa trajetória de divisão do PT na UNE e na UBES que faz com que que o PC do B, através da UJS, se eternize na condução das entidades.

Essa onda de protestos trouxe uma nova perspectiva para a juventude brasileira. Apesar de muitas causas vazias e manifestações com caráter questionável, as mobilizações de massa iniciadas em junho reconstruíram na mentalidade do conjunto da população a noção de que a luta coletiva transforma. Enquanto isso, nosso PT está ocupado com listas de votação interna e boletos que nada representam para a realidade concreta das ruas e da gente desse país. Ou a Juventude Petista assume seu papel dirigente na construção das lutas (e transformações), causando novas tensões no núcleo dirigente de nosso partido e invertendo, na pressão, as prioridades de agenda, ou perderemos o bonde da História, terminado, como no poema de Pessoa, á margem de nós mesmos.

Que os dirigentes da Juventude Petista tenham a coragem de fazer desse “novo” ENEPT um marco na construção de um PT mais jovem e mais socialista.  


Jorge Alberto é jornalista, pós-graduando em Políticas Pública e Gestão e coordenador da Juventude do Movimento PT. 
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