Balanço Coletivo das Gestões 2012-2014/2014-2016 da Secretaria Nacional de Juventude do PT

"O que é, exatamente por ser tal como é, não vai ficar tal como está".
Bertold Brecht
Um balanço político crítico da construção da Juventude do PT é necessário e urgente. Em 2007 e 2008, o conjunto da JPT se preparou coletivamente para apresentar ao partido uma nova visão organizativa que pudesse ser capaz de qualificar a relação do partido com a sua militância jovem e com os/as milhões de jovens simpatizantes do PT. A reflexão que se fazia naquela época estava comprometida com a necessidade de responder aos novos desafios colocados ao PT para renovar a sua capilaridade junto à juventude da classe trabalhadora no contexto de construção nacional do nosso projeto de governo e de sociedade.
Dessa maneira, apostamos na organização de uma juventude partidária com autonomia política e estrutural para participar e dirigir processos de luta e mobilizações militantes, de massas e identificadas com a construção do socialismo democrático. Isso pressupunha, evidentemente, iniciativas para valorizar e organizar a juventude petista na sua pluralidade política, diversidade e nos seus territórios de atuação.
A imaginação política desse processo completa agora 8 anos e, no entanto, a energia necessária para construí-lo nunca foi efetivamente empreendida. Ao longo desses anos, prevaleceu uma visão política descomprometida com esse processo e que utilizou a nova estrutura montada para recompor burocraticamente o seu domínio, antes fragilizado, sobre a juventude petista. Nós que assinamos esse balanço, buscamos combater, de variadas formas e em diferentes momentos ao longo desses anos, a implementação dessa visão burocrática da JPT.
O ciclo da JPT que se encerra, porém, oferece a constatação da cristalização dessa visão burocrática. O sucesso de uma construção interna alheia aos objetivos e encaminhamentos do I Congresso da JPT, não equivale apenas ao atual fracasso das posições defendidas por nós, mas ao aprofundamento de uma crise partidária sem precedentes. Isto porque o bloqueio à construção daqueles objetivos e encaminhamentos e a estruturação de um aparelho burocrático da JPT afastaram o nosso partido de uma relação ampla, viva, dinâmica, permeável com a juventude da classe trabalhadora, impedindo-nos de uma interação mais profunda com os valores políticos e as novas formas de ativismo praticados pela atual geração de jovens.
Desse modo, a JPT tem sido incapaz de participar e disputar os rumos das principais mobilizações e lutas políticas em curso e incapaz de contribuir com o conjunto do partido para suas necessárias mudanças organizativas e de estratégia. A verdade é que a JPT, com isso, tende a ser desnecessária para o partido.
Sendo desnecessária, não há investimento político na sua construção, mesmo que o balanço do atual secretário seja o de "conquista do respeito da direção". Um "respeito" conquistado através do silêncio, esvaziamento programático e ausência de posicionamentos políticos firmes. A falência da política implementada pela maioria da JPT contribui também para a fragilização dos/as jovens que assumiram 20% dos espaços de direção partidária, uma vez que amplia a depreciação e a desqualificação da capacidade dirigente da juventude.
Sendo desnecessária, a Juventude do PT acabaria se tornando um pesado fardo para o partido ao invés de ser a ponta de lança de suas transformações. É fundamental, portanto, que o III Congresso da JPT se debruce sobre essas questões de fundo ou, assim como ocorreu no V Congresso do PT, assistiremos a mais um "Baile da Ilha Fiscal" - aquele no qual o império decadente festeja sua força dias antes da sua derrocada.
Nesse contexto, em janeiro de 2012 inicia-se uma nova gestão a frente da Secretaria Nacional de Juventude do PT. Essa gestão, que se prolonga até hoje com o adiamento do congresso, foi responsável por liderar a juventude petista diante da conjuntura mais adversa enfrentada pelo PT nesses últimos anos: as eleições de 2012, as mobilizações de junho de 2013, as eleições de 2014 e a atual crise pela qual passamos.
As eleições municipais de 2012 ocorreram em meio a um processo de ataques da mídia que tinha como centro a cobertura seletiva e parcial do julgamento da AP 470. Havia um nítido objetivo de influenciar no desempenho do PT nas eleições.
Vivenciamos um processo de total distanciamento das bases petistas e da juventude brasileira, não conseguindo fomentar candidaturas jovens e muito menos incidir efetivamente na renovação das câmaras municipais. Além disso, não houve nenhum movimento no sentido de subsidiar na formulação das plataformas programáticas de nossos/as candidatos/as, nem tampouco no apontamento de uma agenda de políticas voltadas à juventude. Assim, terminamos o ano de 2012 sem ao menos uma resolução política de avaliação do processo eleitoral e seus impactos para dentro da organização partidária.
O passo seguinte no processo de organização da JPT após o I Congresso que superou o modelo setorial, que seria a municipalização da juventude do PT, não foi dado. Pelo contrário. Em muitos municípios que realizaram congressos municipais as direções eleitas já apontavam sinal de desgaste por falta de uma pauta e uma agenda de conjunto por parte da JPT, gerando como saldo político da extensão forçada da SNJPT: gestões das secretarias municipais inexistentes do ponto de vista político e estrutural.
As eleições de 2012 confirmaram uma tendência constatada em 2010 que apontava certo esgotamento da narrativa de comparação entre passado e presente, ou seja, de nossos governos com os governos tucanos. Tal esgotamento mostrou-se ainda mais latente entre os jovens que não vivenciaram as mazelas do período neoliberal. Em razão disso, as exigências e anseios da atual geração supera as demandas materiais mais básicas e urgentes para as quais os governos do PT deram respostas. Em síntese, melhoramos significativamente a vida das pessoas "da casa para dentro", com forte incentivo ao consumo, aumentando a expectativa do povo que também querem ver melhorias "da casa para fora", o que se traduz no aumento e melhoria dos serviços públicos, bem como a necessidade de combater a desigualdade para além da capacidade de consumo de mercadorias e incidir sobre a formação cultural e ideológica da classe trabalhadora.
Tal fato ficou evidenciado nas principais reivindicações das grandes manifestações que ocorreram nos meses de junho e julho de 2013. Dentre elas, vale mencionar questões referentes à mobilidade urbana, direito à cidade, qualidade dos serviços públicos e combate à corrupção sistêmica, mais educação, mais saúde e uma nova política sobre drogas. As ruas deram, ainda, um recado claro ao sistema político brasileiro: há uma insatisfação generalizada com as instituições que conformam a política tradicional, sejam elas do Estado, partidos políticos ou movimentos sociais. Ficou explícito naquelas mobilizações e nas intervenções que a juventude seguiu protagonizando, como os "rolezinhos", uma consciência política e um ativismo mais horizontal, voltada para a ação imediata e menos para a retórica, reivindicando mais protagonismo, presença e participação efetiva das pessoas nos espaços públicos da cidade e da democracia e menos representação das lideranças.
Embora a mensagem tenha sido nítida para quem acompanhou e buscou interagir com as manifestações, a direção nacional da JPT manteve-se alheia e indiferente ao que estava acontecendo. Não houve nenhuma orientação ou intervenção objetiva e coordenada diante daqueles movimentos. A maioria da direção JPT fez a opção de encastelar-se na máquina burocrática, enquanto a mente e os corações de milhões que ocupavam as ruas estava em disputa. Perdemos, portanto, uma grande oportunidade histórica de renovarmos nossa agenda de lutas.
Durante todo o ano de 2013 que certamente entrou para a história, a única atividade nacional realizada pela JPT foi o Encontro Nacional de Estudantes Petistas. Tal agenda poderia ter sido uma grande oportunidade de dialogar com um setor expressivo da juventude petista, todavia apresentou pontos falhos na medida em que boa parte dos estados não realizaram as etapas regionais e a mobilização nacional ficou muito aquém do possível e necessário. Além disso, avaliamos que tal encontro poderia ter cumprido um papel político-organizativo muito superior, mas não o fez, pois fora realizado posteriormente ao CONUNE, fato que jamais houvera acontecido anteriormente. Vale registrar que o ENEPT foi pensando como forma da JPT acumular elementos táticos e programáticos para a disputa do movimento estudantil, combatendo a dispersão e promovendo a unidade dos petistas neste movimento social. Isto é, realizamos uma atividade em pleno momento de grande efervescência popular e geracional, mas que não produziu a política que estivesse de acordo com essa efervescência. Encerramos, portanto, mais um ano sem acumular politicamente nada de novo para a construção da JPT, distanciando-nos cada vez mais da juventude brasileira.
Em 2014 enfrentaríamos uma batalha política e eleitoral muito difícil e desafiadora, pois havia uma avaliação comum entre as forças mais à esquerda que tínhamos atingido o limite e esgotamento da tática de conciliação de classes. Não estávamos às vésperas de uma disputa meramente eleitoral, mas completamente imersos em uma disputa política com nítido recorte de classe. No entanto, setores que hegemonizam a direção nacional do PT, da JPT e do Governo Federal, não davam o braço a torcer e permaneciam inertes, afirmando que venceríamos tranquilamente e no primeiro turno, apostando suas fichas no maior tempo de TV e no marketing de João Santana, alçado ao status de estrategista político da campanha. Havia, portanto, uma divergência de fundo estratégico entre as forças do PT. Tais análises distintas não puderam ser debatidas e reverberadas na JPT em razão de um esvaziamento político total e dotado de intencionalidade, qual seja, a não realização do Congresso Nacional da Juventude do PT, previsto estatutariamente e que deveria ter ocorrido no ano anterior. Visando, com isso, a manutenção do secretário nacional de Juventude a frente da JPT.
Esse movimento representou um golpe no conjunto da militância da Juventude do PT, introduzindo um mecanismo ilegítimo de reeleição tácita, historicamente avesso e contraditório à concepção de organização e funcionamento da juventude do PT, bem como os processos de transição na juventude. Tratou-se de um movimento que contribuiu para a desmobilização política e a capacidade de acumulo e formulação de uma plataforma tática e programática da JPT para as eleições 2014.
Assim, fomos tragados pelo processo eleitoral sem ao menos conseguirmos apresentar as respostas que a juventude brasileira exigia naquele momento. Ao invés de realizarmos o congresso nacional da JPT e fortalecermos as instâncias de debate e deliberação, o setor que hegemoniza a secretaria nacional de juventude fez uma opção e decidiu unilateralmente pela realização de um evento com outro caráter, que, por sua vez, deslocou a JPT ainda mais da real disputa colocada na sociedade. Tal evento denominado "Aldeias da Juventude" aconteceu na cidade de Guarulhos, sendo pouco mobilizado e demonstrando que os setores da atual maioria da JPT compreendem que se há problemas, estes são de método e de forma e não de conteúdo e de política. Neste momento, a JPT não teve capacidade de formular propostas para o programa da nossa então candidata, Dilma, nem tampouco organizar, preparar e subsidiar a intervenção política da juventude petista em um dos processos eleitorais mais disputados de nossa história.
Iniciada as eleições, atendendo uma determinação da coordenação da campanha, criou-se um GT de Juventude para formulação do programa. No entanto, depois de concluído os trabalhos do GT, nenhuma das propostas foram incorporadas ao programa final e oficial de nossa candidata. Deve-se isso à incapacidade de articulação política e falta de credibilidade na qual a JPT se afunda a cada dia. Diante disso, a participação institucional da JPT em todo o processo eleitoral, restringiu-se a duas atividades nacionais, quando na realidade a conjuntura exigia um intenso e permanente processo de mobilização popular, como meio de disputarmos as opiniões dos diversos setores da juventude brasileira.
A despeito da completa ausência da Juventude do PT enquanto instância partidária, houve um processo de mobilização espontânea e voluntária de jovens filiados, militantes e simpatizantes com nosso projeto em todo o país. E, mesmo assim, a JPT não conseguiu inserir-se politicamente, mantendo-se mais uma vez encastelada e isolada na máquina burocrática do partido. Perdemos, portanto, outra grande oportunidade política de renovarmos nossa agenda de lutas e reposicionarmos estrategicamente a juventude do PT diante da sociedade brasileira. Vencemos as eleições e acumulamos um capital político a partir de uma plataforma democrática, popular e libertária, que rapidamente diluiu-se em meio a uma forte pressão dos setores mais conservadores de nosso país e do capital internacional, associada a uma estratégia errada de capitulação por parte da maioria do PT e do Governo.
Ainda no final de 2014, aconteceu uma reunião do diretório nacional do PT que tinha como pauta avaliação e balanço das eleições. No entanto, a JPT propositadamente não reuniu sua executiva nacional, a fim de debater e apresentar ao conjunto do partido uma opinião política acerca do que estava acontecendo. Fica a sensação de que estamos cada vez mais alheios, inertes e distantes da realidade.
Em 2015, meio a um cenário de profunda crise política e econômica, e de avanço do conservadorismo em várias frentes, tivemos a oportunidade de debater com petistas de todo país os rumos estratégicos do nosso partido e as medidas necessárias à superação dos muitos desafios inerentes a atual conjuntura. Nutrimos a expectativa de filiados ao PT e militantes de esquerda como um todo, de que mudaríamos o rumo de nossas ações, de que daríamos uma resposta à altura. Tal expectativa foi frustrada por um V Congresso que fez a opção de manter tudo como está, de derrotar sua base sindical, a maioria da bancada federal, e todos aqueles e aquelas que a partir de um viés crítico as atuais medidas em curso no governo, diziam que precisávamos retomar o programa referendado nas urnas e aprofundar as transformações iniciadas pelas gestões de Lula e Dilma, e não colocá-las em xeque.
Nas vésperas do III Congresso, a JPT, após pressão do conjunto das forças políticas que compõem sua direção nacional, convocou um conselho político desmobilizado e esvaziado politicamente. Na oportunidade realizamos uma insuficiente análise de conjuntura, e dedicamos a maior parte das nossas energias ao debate sobre o regimento interno do III Congresso Nacional da JPT. Diferentemente dos processos congressuais anteriores (III e IV Congressos do PT), nos furtamos a apresentar propostas, opiniões e uma intervenção conjunta e coordenada da Juventude do PT enquanto instância partidária.
Diante de uma das mais longas gestões da história do partido, encontramo-nos hoje em meio a um processo atropelado que visa à construção do III CONJPT que, por sua vez, tem como objetivo velado exercer para a juventude, o mesmo papel que o V Congresso teve para o conjunto do PT, leia-se, neutralizar e anular qualquer zona de incerteza, silenciar as críticas e perpetuar uma maioria superficial e inorgânica. Aprofundando, desta maneira, a nossa distância em relação à sociedade.
Por esta razão, setores da militância da juventude petista que combatem estas tentativas, realizam este balanço acerca dos fatos que marcaram a atual gestão. Com a aproximação das primeiras etapas do III Congresso, precisamos compartilhar com o conjunto da JPT uma opinião de como as coisas aconteceram. Este pode ser um momento importante de reviver debates e revisitar formulações esquecidas ou supostamente superadas. A história não deve se voltar para o passado, mas para o futuro. Podemos tirar bons ensinamentos da própria trajetória da juventude petista, com vistas à construção de perspectivas melhores.
Por hora, apresentamos estes elementos como subsídio a todas e todos, mas principalmente aquelas e aqueles que acreditam que as coisas não podem continuar como estão! Uma JPT independente, de massas e socialista é possível e cada vez mais necessária!
Assinam este documento:
AE (Articulação de Esquerda)
EPS (Esquerda Popular e Socialista)
MAIS (Movimento de Ação e Identidade Socialista) - MG e Amapá
Mensagem ao Partido
MPT (Movimento PT)
MS (Militância Socialista)
PTLM (Partido dos Trabalhadores de Lutas e de Massa) - Amapá
Tribo-MG








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