Iniciação científica no Brasil? Os desafios são grandes.

Laboratório de pesquisa na UFMG: cortes afetam atividades científicas no estado
Imagem: Foca Lisboa / UFMG

Em 2019 o Brasil caiu para o 66º lugar em ranking global de inovação, entre 129 países, conforme o Índice Global de Inovação. Em 2015 o volume de investimento em Pesquisa e Desenvolvimento no Brasil representava 1,34% do PIB (Produto Interno Bruto), em 2016 esse valor começou a cair gradativamente.


O Brasil, atualmente é o 13º maior produtor mundial de publicações científicas, conforme apresentado pela Clarivate Analytics. Para se ter uma ideia, em 1996 o Brasil não representava sequer 1% de conteúdo científico no mundo, porém, nos últimos 10 anos houve um crescimento bem expressivo, chegando, em 2018, a 2,63% da produção mundial e 52,5% dos países da América Latina, conforme dados da SJR SCImago Journal & Country Rank.


De 2011 a 2016 o Rio Grande do Sul teve a quarta maior produção de pesquisa em relação aos outros estados brasileiros (30.240 artigos) e, em média, seus trabalhos recebem 8% mais citações do que a média brasileira.
Em 2019 a UFRGS ficou entre as cinco maiores instituições de produção científica do Brasil, conforme informado pela Clarivate Analytics, com mais de 13 mil publicações, e está entre as 700 melhores instituições do mundo, divulgado pela QS World University Rankings.


O valor da bolsa para alunos de mestrado é de R$1.500,00 e de doutorado R$2.200,00, pagos pelas agências de fomento (CAPES/CNPQ). Esses valores são utilizados para custeio de alimentação, transporte e, muitas vezes aluguel. É a nossa única renda, até porque, quem tem bolsa não pode ter qualquer outro tipo de vínculo trabalhista, conforme a portaria conjunta da CAPES/CNPq n°1, de 15 de Julho de 2010.


O custo de vida é totalmente desproporcional para a quantia que os pós-graduandos recebem, e além disso, devido aos diversos cortes orçamentários, e os últimos contingenciamentos, as pesquisas foram gravemente afetadas, gerando transtornos e até perdas de desenvolvimento científico de anos dedicados a novas descobertas e inovações.


Lembro que nem todos os pesquisadores têm condições de arcar as contas com a bolsa, e tem que negá-la e dividir o tempo de trabalho no laboratório de pesquisa com o trabalho em empresas privadas para poder pagar as contas. E, quando é necessário tomar ações deste tipo, é totalmente desfavorável a qualquer forma de desenvolvimento científico, bem como para a saúde do pesquisador. Nós temos prazos, aulas, atualização diária de pesquisas para podermos produzir inovações de alta qualidade dentro de nossas áreas, além dos estágios didáticos e a própria pesquisa em si que dispende de um tempo bem extenso.


Além disso, não adianta termos bolsas de auxílio, se não temos o devido financiamento das pesquisas. Na área da saúde por exemplo, temos reagentes que podem passar de 5 mil reais.


O Brasil já está em um patamar de grande respeito no desenvolvimento científico mundial, porém, podemos alcançar lugares muito maiores, e o país necessita de desenvolvimento científico para seu próprio crescimento socioeconômico, bem como cultural. Já se sabe que a inovação tecnológica gera postos de trabalho mais bem remunerados e mais estáveis para o país (Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação).


A pesquisa envolve diversos campos, e está diretamente ligada a vida da população, como por exemplo, o desenvolvimento de remédios, e/ou vacinas que são utilizados nos programas governamentais de controle de prevenção primária de doenças.


Venho aqui fazer um apelo para que o parlamento e o governo federal abram seus olhos para o seu, o nosso país, para que entendam o quanto a pesquisa e o desenvolvimento científico é importante para o Brasil bem como para a população brasileira.


Nós não estamos brincando, dedicamos diversas horas para poder encontrar respostas para as incógnitas que nos cercam, como, por exemplo, descobrir novos tratamentos e/ou curas para doenças ainda não descobertas como na área da saúde. Enquanto isso, o atual governo de Bolsonaro só se preocupa em contingenciar os recursos essenciais, levando o país ao retrocesso.


Fazer pesquisa e ajudar no desenvolvimento da ciência em nosso país não é nada fácil, mas com o esforço de todos, e a compreensão do governo estadual e federal, bem como o MCTIC e MEC, podemos avançar, transformar e colocar o Brasil em um patamar mais agregador na inovação científica e no seu próprio desenvolvimento, desta forma ajudando a população nos diversos campos a que ela pertence.


Para finalizar deixo uma fala do neurocientista brasileiro, Miguel Nicolelis:

Todo mundo quer falar de inovação, mas poucas pessoas entendem que inovação começa com gente, e gente para fazer inovação tem que ser educada. O grande gargalo da ciência brasileira é a educação brasileira”.


*Victor Hugo Fros Boni, Biomédico, aluno de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento da UFRGS e membro do movimento Fora da Ordem em Porto Alegre.



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